Guia

O que é Gravura?

A arte da matriz e da multiplicidade: uma introdução aos processos, às técnicas e às leituras contemporâneas da gravura artística.

A arte da matriz

A arte do encontro entre matéria e pensamento

Se você já se perguntou como uma mesma imagem pode ganhar o mundo em múltiplos exemplares sem perder sua força artística, você está prestes a entrar no fascinante universo da gravura. A gravura artística é, antes de tudo, uma arte do encontro: entre o pensamento e a matéria, entre o gesto e a ferramenta, entre a matriz e o papel.

Como descreve o gravador Marco Buti, ela não é um procedimento puramente manual ou um conceito vazio. É um processo vivo onde "matéria e pensamento" se fundem, uma espécie de "xadrez" onde cada movimento na matriz exige a visualização antecipada do resultado final, que só será revelado na prensa¹.

Diferente da pintura ou do desenho, onde o traço é imediato, a gravura é uma arte indireta. O artista trabalha sobre um suporte intermediário — a matriz — e só conhece o resultado completo após a impressão. É uma arte da possibilidade, do risco calculado, onde se trabalha "com probabilidades, e não com certezas"¹.

Matriz

Todo entalhe, sulco, traço ou corte que define a imagem.

Multiplicidade

Cada impressão é original, numerada e assinada pelo artista.

Antecipação

O artista desenha pensando no resultado impresso.

Impressão

Pressão, entintagem e papel fazem nascer a imagem final.

Função social

A gravura: muito além do ateliê

Historicamente, a gravura desempenhou um papel crucial na democratização do conhecimento e da arte. Antes da fotografia e da internet, era através da estampa que as obras de arte circulavam. Giorgio Vasari, no século XVI, já destacava que os gravadores "propiciaram a comodidade de ver as diversas invenções e maneiras dos pintores àqueles que não podem ir até onde estão as obras principais"².

Longe de ser uma "arte menor" por ser reproduzível, a gravura foi o principal veículo de difusão cultural do Ocidente. Como bem lembra a pesquisadora Julia Vidile, o renome de grandes mestres como Rafael era amplificado justamente pelas gravuras que reproduziam suas obras, criando um ciclo onde a popularidade alimentava a circulação das imagens².

Famílias

As grandes famílias técnicas da gravura

Embora as experimentações contemporâneas diluam as fronteiras, a tradição nos apresenta quatro grandes processos de criação de matrizes, cada um com sua linguagem própria.

Gravura em relevo — xilografia e linoleogravura

Aqui, a lógica é do carimbo: tudo o que fica em alto na matriz recebe a tinta e imprime no papel; o que é entalhado (rebaixado) permanece sem cor. A xilografia é feita com madeira (imburana, cedro, pinho ou compensado), entalhada com goivas e formões — técnica muito presente no cordel nordestino. A linoleogravura usa o linóleo, material mais macio e homogêneo, explorado por Picasso no método da matriz perdida³.

Gravura em oco-relevo — calcografia

A lógica é inversa: a tinta fixa-se nos sulcos abertos no metal (cobre, zinco ou aço). Na impressão, sob a alta pressão da prensa, o papel úmido é forçado a entrar nesses sulcos para "puxar" a tinta. Na água-forte, o ácido corrói o metal desenhado sob o verniz; na ponta-seca, o traço aveludado nasce da rebarba criada pela ponta de aço.

Gravura plana — litografia

Inventada no fim do século XVIII, baseia-se no princípio da repulsão entre água e óleo. Artistas desenham com materiais gordurosos sobre uma pedra calcária; a pedra é umedecida e a tinta oleosa adere apenas ao desenho. É a técnica que mais se aproxima da pintura e do desenho direto.

Serigrafia

A técnica da "trama de seda": a tinta é vazada através de um tecido esticado em um chassi, e as áreas bloqueadas (por emulsão fotográfica, recortes ou verniz) não recebem tinta. Usada pela Pop Art e pelo cinema novo brasileiro, permite imprimir sobre as superfícies mais variadas — do papel à madeira e ao tecido.

Hoje

Gravura expandida: hibridismo e expansão

Hoje, a gravura artística rompeu as barreiras do papel e da matriz tradicional. Como aponta o pesquisador Fernando Gómez Alvarez, vivemos a era da gravura expandida ou híbrida: artistas já não se perguntam "qual técnica usar?", mas sim "quais técnicas combinar?".

Matrizes alternativas

Sucata industrial, EVA, garrafas PET, embalagens tetrapak, isopor, gesso dental e até gelatina culinária criam monotipias efêmeras e texturas inusitadas³.

Colagrafia

Uma técnica que é pura colagem: grãos de areia, barbantes, cola e tecidos são colados sobre uma base para criar uma matriz em relevo rica em texturas.

Baixa toxidez

Laboratórios substituem os ácidos tradicionais por alternativas mais seguras, como o percloreto de ferro, e usam polímeros fotossensíveis revelados com água e luz solar³.

Escala monumental

A gravura saiu do pequeno formato e invadiu a arquitetura, com matrizes entalhadas diretamente no piso de museus ou aplicadas em fachadas de prédios.

Minivídeos

Veja como são feitas as técnicas da gravura sergipana.

Xilogravura

"Veja como é feita uma xilogravura"

Serigrafia

"Como é feita uma estampa serigráfica"

Carimbos artesanais

"A arte dos carimbos no ateliê"

Ferramentas

"Materiais e instrumentos da gravura"

Vídeos em produção — breve, as gravações do campo de pesquisa estarão disponíveis aqui.

Referências

  1. BUTI, Marco. Gravação como processo de pensamento. Revista USP, São Paulo, 1996.
  2. VIDILE, Julia. De volta ao Mundo da Arte — releitura das Caixas Brillo de Warhol à luz de uma história da gravura. (Arquivo fornecido).
  3. ALVAREZ, Fernando Gómez. Gravura: uma introdução. Vitória: UFES, Núcleo de Educação Aberta e a Distância, 2011.

Da matriz ao mundo

A gravura é, antes de tudo, uma forma de fazer imagens circularem. Explore as estampas documentadas e veja as técnicas em ação.